Lisboa, 19 mai 2026 (Lusa) — A Ordem dos Médicos (OM) vai entregar ao Executivo um documento estratégico direcionado para a Medicina Geral e Familiar. O plano assenta em três pilares fundamentais: assegurar o acesso universal a um médico de família, valorizar a carreira dos profissionais e implementar uma governação clínica eficaz que reforce a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
As propostas finais serão consolidadas esta terça-feira durante o fórum “Reflexão sobre o Futuro da Medicina Geral e Familiar em Portugal”. O evento, promovido pela OM e pelo colégio da respetiva especialidade para assinalar o Dia Mundial do Médico de Família, junta de forma inédita diretores clínicos, sindicatos, sociedades científicas e associações do setor. O objetivo passa por desenhar soluções estruturais para a escassez de clínicos, mitigar as dificuldades de fixação no SNS e corrigir as falhas de interoperabilidade tecnológica entre serviços.
De acordo com os dados mais recentes do Portal da Transparência do SNS, em março deste ano registavam-se 1.624.358 utentes sem médico de família atribuído — o que representa um acréscimo de 30.557 pessoas face ao período homólogo de 2025. A região de Lisboa e Vale do Tejo lidera as carências com mais de 1,1 milhões de cidadãos afetados, seguindo-se o Algarve e o Alentejo.
Em declarações à Agência Lusa, o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, apontou a existência de um "paradoxo" no sistema de saúde público. Nos últimos dez anos, o número de especialistas em Medicina Geral e Familiar em Portugal cresceu significativamente, passando de cerca de 6.000 em 2015 para mais de 9.000 na atualidade. Contudo, em termos paralelos, a fasquia de utentes sem clínico de referência saltou de um milhão para os atuais 1,6 milhões, um fenómeno que ocorreu sem que se tenha verificado um aumento demográfico expressivo no país.
Para o bastonário, o principal fator para este cenário prende-se com a perda de atratividade do SNS. Carlos Cortes reconheceu o peso das reformas na classe, mas recordou que as projeções oficiais para 2025 e 2026 apontavam para uma estabilização, cenário em que a entrada de novos especialistas deveria compensar as saídas. "É mais do que evidente que isso não está a acontecer", observou.
Questionado sobre o recente concurso que abriu 711 vagas para esta especialidade, o líder da OM defendeu que o sucesso da medida se mede pela taxa de ocupação real e não pelo anúncio. Apontou ainda um erro de planeamento na distribuição geográfica do Ministério da Saúde, sublinhando que algumas zonas com carências severas ficaram de fora do mapa de vagas.
Face à fuga de especialistas para o setor privado, social, prestação de serviços ou para a emigração, a Ordem dos Médicos pretende formalizar o caderno de encargos junto do Ministério da Saúde e do responsável pelo Pacto da Saúde da Presidência da República, Adalberto Campos Fernandes.
Entre os eixos em debate no fórum destaca-se a necessidade de rever o modelo das Unidades Locais de Saúde (ULS). Carlos Cortes defendeu a urgência de reapreciar esta reforma, criticando o facto de um modelo desenhado para integrar os cuidados primários ter derivado, na prática, num "hospitalocentrismo" ou "urgenciocentrismo" que asfixia o SNS.
Sob o lema internacional "Cuidar com compaixão num mundo digital", a Ordem dos Médicos quer ainda debater soluções que conciliem a modernização tecnológica, a telemedicina e as ferramentas de inteligência artificial com a proximidade e a humanização do ato médico, salvaguardando a dignidade e o apoio ao doente.