Loures, Lisboa, 14 jul 2026 (Lusa) — Passou exatamente um ano desde a grande operação de demolição no bairro do Talude Militar, em Loures, mas o cenário de pobreza extrema continua intacto. Dezenas de habitações precárias de madeira e zinco resistem no local, onde dezenas de crianças continuam a brincar descalças por entre entulho e lixo acumulado, fruto de um arrastado bloqueio nos tribunais.
Em julho de 2025, a autarquia liderada por Ricardo Leão (PS) tentou deitar abaixo 64 barracas onde residiam 161 pessoas. Contudo, a contestação de movimentos cívicos e três dezenas de providências cautelares apresentadas por moradores conseguiram suspender judicialmente o processo. Atualmente, cerca de 60 construções improvisadas continuam de pé à espera de uma sentença final.
O presidente da Câmara de Loures assumiu à Lusa a sua inquietação com a lentidão da Justiça. "É preocupante que já tenha passado um ano e ainda não haja uma decisão", desabafou Ricardo Leão, assegurando que, assim que o tribunal dê luz verde, as habitações ilegais "vão abaixo". O autarca revelou ainda que a autarquia mantém uma fiscalização diária apertada e "tolerância zero" para evitar novas construções, tendo conseguido demolir 40 estruturas ilegais desde outubro passado.
O líder do município lamentou também o silêncio do Ministério Público perante uma queixa-crime enviada há um ano, que denunciava um alegado esquema de venda ilegal de barracas no bairro por valores que rondavam os dois a três mil euros.
Quanto ao apoio social, a autarquia investiu mais de 29 mil euros para ajudar as famílias desalojadas nas demolições a pagar cauções e rendas de novas casas. Embora 23 agregados familiares tenham conseguido autonomizar-se e outros tenham recebido alojamento temporário em pensões, a autarquia admite que parte das famílias acabou por regressar voluntariamente às condições de extrema precariedade do bairro do Talude.