SÃO PAULO — O primeiro confronto direto na televisão entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro foi pautado por um clima de forte tensão, trocas constantes de acusações pessoais e um leque reduzido de propostas para o futuro do país. O debate, transmitido pela TV Bandeirantes (Band) e com a duração de cerca de duas horas, foi o único frente a frente realizado até ao momento na corrida à segunda volta das eleições presidenciais.
Aproveitando a pouca intervenção dos moderadores e um bloco de 30 minutos de confronto livre, ambos os aspirantes ao Planalto optaram por direcionar as suas intervenções ao desgaste do adversário. O candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) procurou defender os resultados da sua governação e focar-se na preservação democrática, enquanto o senador liberal concentrou o seu discurso na segurança pública e no combate à criminalidade.
Farpas pessoais e trocas de acusações
A crispação fez-se sentir desde os primeiros minutos. Quando convidado a aproximar-se do oponente no palco, Lula desferiu críticas duras: "Quero distância de um miliciano", atirou o atual Presidente. A resposta do senador surgiu de imediato, ironizando que precisava de "ter cuidado para a carteira não ser roubada".
A segurança pública e a votação nos estabelecimentos prisionais motivaram outro dos momentos mais acesos da noite. Citing dados sobre a preferência do eleitorado recluso na primeira volta, Flávio Bolsonaro questionou os motivos de Lula ter tido a preferência da maioria dos presidiários, ao que o Chefe de Estado respondeu que gostaria de ter o apoio de "100%, até do teu pai", referindo-se ao ex-Presidente Jair Bolsonaro.
O tema da corrupção esteve igualmente em destaque, com referências mútuas a investigações recentes e um desafio lançado por Lula para a abertura do sigilo bancário e telefónico de ambos. O senador rebatou as acusações apontando para a presença no estúdio de figuras ligadas à Operação Lava Jato, como Sergio Moro e Deltan Dallagnol.
Geopolítica e segurança no centro dos programas
No plano das propostas, Flávio Bolsonaro insistiu na criação do "Ministério da Prosperidade", no reforço da vigilância com o recurso a câmaras e na declaração de guerra ao "narcoterrorismo", defendendo ainda uma maior aproximação militar e estratégica aos Estados Unidos.
Por seu turno, Lula questionou a soberania nacional perante a influência de Washington e alertou para a preservação de recursos estratégicos, como as terras raras brasileiras. O debate incluiu ainda comparações geopolíticas, com Lula a associar o oponente a líderes de direita como Donald Trump e Javier Milei, e Flávio a retribuir associando o atual Presidente a regimes como o de Nicolás Maduro na Venezuela.
Reta final renhida nas urnas
A tensão estendeu-se ao momento das considerações finais, marcado por advertências da organização em relação à postura dos candidatos em palco e a manifestações ruidosas do público convidado no estúdio.
A disputa segue para a fase decisiva após uma primeira volta bastante renhida, em que Flávio Bolsonaro liderou com 47,03% dos votos válidos, seguido de perto por Lula da Silva com 45,16% — uma margem de pouco mais de dois milhões de votos que deixa o desfecho em aberto para o ato eleitoral de domingo.
Fonte - Sic Notícias